Minha Cirurgia Refrativa PRK

ou porque não fazer a cirurgia refrativa


Antes do dia 16/06/2020, eu era uma pessoa normal, trabalhava, estudava, lia bastante, desenhava. Prestes a completar meus trinta anos de idade, contava com -7.75 graus de miopia no olho esquerdo e -6.75 graus no direito, e 0.75 graus de astigmatismo em cada olho.

Meus óculos estavam velhos e minha visão não era boa com eles, pois o grau não correspondia, e eles já tinham lá seus dois ou três anos. Então eu me via na dúvida entre me submeter a uma cirurgia refrativa na esperança de melhorar minha visão, ou adquirir óculos novos. 

Por duas vezes, em meados de setembro do ano passado e em março desse ano, me consultei com um médico oftalmologista que havia operado um amigo meu aqui na minha cidade, Belém/PA. 

A cirurgia

Em ambas as consultas, nas quais me submeti a uma bateria de exames, o tal médico garantiu que eu era apta a qualquer uma das duas técnicas de cirurgia disponíveis, lasik ou prk. Embora estranhando tal fato, pois olhava meus exames e via vários pontos em vermelho que até então não sabia o que significavam, preferia acreditar, pois afinal de contas, se trata de um profissional (supostamente) sério, proprietário de uma grande clínica na minha cidade. 

Até que, em junho deste ano, na dúvida entre encomendar óculos novos e me submeter ao procedimento cirúrgico, acabei por ir pelo último caminho. Imaginava que seria bom para mim, que teria qualidade de vida, poderia praticar esportes e ir à praia sem me preocupar com óculos ou lentes de contato, não sentiria mais o peso dos óculos de grau já bastante elevado no rosto, não arriscaria uma infecção causada pelo uso de lentes de contato. 

Então marquei o procedimento para o dia 16/06/2020. O médico, em uma das consultas, havia me advertido de que eu poderia pagar um valor fixo, além da cobertura do meu plano de saúde (que cobria a cirurgia porque tinha alta miopia), e me submeter a um procedimento sem o contato com instrumentos, totalmente a laser, e que reduziria o risco de infecção. Optei por pagar. Tudo então foi muito rápido, mas saí da sala de cirurgia sem os óculos de proteção. Fiquei na sala de espera (com incidência de luz solar) por cerca de cinco ou seis minutos aguardando os óculos de proteção. Foi o suficiente para sentir uma forte irritação no olho direito que me acompanharia por dias a fio. 

Cabe aqui acrescentar que o médico não me passou ou explicou o regime de colírios. Recebi da secretária da clínica a receita, e esta me passou uma orientação equivocada, o que me fez utilizar o colírio antiinflamatório inicial de 1h em 1h durante todo o dia em que a cirurgia foi feita, até as 24h do retorno ao médico. 

No retorno, meus olhos permaneciam inchados e muito vermelhos. O médico, que me atendeu na velocidade da luz, se não houvesse sido questionado quanto ao regime de colírios, sequer teria me orientado corretamente quanto a forma de utilização. Eu deveria então retornar em seis dias para a retirada das lentes de contato curativas. Claro que nem preciso deixar claro que os cinco primeiros dias foram de terror. Dores terríveis, e o antiinflamatório receitado pelo médico simplesmente não era capaz de melhorar a sensação que eu sentia nos dois olhos, que pareciam, realmente, ter sido queimados com um ferro quente. 

Lacrimejamento permaneceu por três ou quatro dias, eu parecia estar chorando o tempo todo. Vale ressaltar que comecei a apresentar alergia nas mãos e nos pés.

Sexto dia

Amanheci com a lente incomodando bastante o olho direito. Havia secreção no local, de cor amarelada. Achei estranho. Pensei estar com uma conjuntivite. Ao chegar na clínica, uma funcionária fez a retirada das lentes de contato. Senti que meus olhos iam saltar para fora do meu rosto. Uma pressão ocular imensa. Eu piscava e tentava manter os olhos abertos, pois com eles fechados a sensação era pior. Ao mesmo tempo, eu sentia que o epitélio parecia fino, vulnerável. O médico me atendeu depois de uma longa espera. Relatei todos os sintomas. Ele se limitou a me dizer: - Tudo isso é normal. Aguarde e use os colírios, a partir de agora tudo vai melhorar. Fui ignorada quanto à sensação de pressão ocular, quanto à minha suspeita de conjuntivite, quanto à reclamação da sensação de queimação que sentia. Voltei para casa. 

Nono e décimo dias

A partir desses dias a dor no olho direito só fazia piorar. Era uma mistura de pontadas e ardência, algo insuportável. No décimo dia, uma sexta feira, retornei à clínica onde fiz a cirurgia na tentativa de me consultar com o médico que me operou, mas ele já não se encontrava mais. Fui atendida por outro médico, que se limitou a me passar um antiinflamatório, Toragesic, e voltar para casa. A noite a dor piorou. Em desespero, consegui com urgência uma consulta particular com um médico de fora da clínica que me operou, para o sábado. Vale ressaltar que desde o primeiro dia até aqui, meu sono já não era mais o mesmo. Após todos esses dias, eu levantava no meio da noite por várias vezes, com dor e ressecamento ocular. 

Décimo primeiro dia

Consegui me consultar com um médico particular, de fora da clínica onde fiz a cirurgia. Fui diagnosticada com um quadro de ceratite, possivelmente devido ao olho seco. Obtive indicação de um colírio em gel, com capacidade maior de hidratação, Hylo Gel, além de um gel para manter a hidratação durante a noite, Epitegel. Obtive alguma melhora, porém na segunda feira acordei com o outro olho, o esquerdo, incomodando. Veias saltadas e uma aparente inflamação me deixaram assustada. Informei ao médico, que me recomendou retornar ao uso do colírio antibiótico e retornar à clínica para atendimento. O colírio antibiótico que eu vinha usando até aqui, ao que parece, é padrão, Vigadexa, e eu já havia usado por dez dias, e havia substituído pelo colírio com corticoide conforme o receituário que recebi no dia da cirurgia. Verifiquei que estava melhorando, o quadro alérgico nas mãos e pés vinha começando a regredir. 

Mas logo eu viria a perceber que aquele receituário não se encaixaria ao meu caso. Ao aplicar novamente o colírio Vigadexa, observei um retorno de todos os sintomas de primeiros dias de cirurgia. Eu estava apresentando um quadro de alergia ao colírio. 

Informei ao médico. Interrompi o uso. Retornei para (apenas) o colírio corticoide (Flutinol).

Décimo quinto e décimo sexto dias

Meus olhos amanheceram extremamente vermelhos, principalmente na parte inferior. Ambos doíam muito. Ardência insuportável até quando aplicava o colírio lubrificante. Eu estava tendo um quadro inflamatório. 

Informei ao médico que vinha me acompanhando. Vale ressaltar que a clínica onde me operei me deixou completamente na mão. Fui diagnosticada com um quadro inflamatório de blefarite. Precisei entrar com antibiótico via oral (azitromicina) e um colírio antibiótico e antiinflamatório mais potente (zypred).

Décimo sétimo e décimo oitavo dias

Cá estou eu, sentindo os efeitos de um colírio antibiótico e antiinflamatório potente. Obtive melhora na inflamação. Ainda sinto algumas pontadas nos olhos. Um certo incômodo. A vermelhidão surge no início do dia, e ao longo dele vai melhorando com o uso do colírio, que deve ser utilizado por quatro vezes. 

Durante a noite, consigo dormir melhor, eventualmente levanto assustada em razão da variação na pressão ocular. Por vezes sinto quadros de enxaqueca leve durante a noite, que melhoram ao amanhecer. Ao menos já consigo caminhar pela casa usando os óculos, então sinto que a fotofobia vem reduzindo. À noite eventualmente me arrisco a permanecer sem os óculos mas sinto que as luzes acesas, depois de um tempo, ressecam e irritam meus olhos, por isso acabo por usá-los à noite como precaução. 

A sensação que tenho hoje, é a de que troquei os óculos de grau por óculos escuros. Mas isso não é bom. Antes eu não sentia desconforto, no máximo olhos secos após longas horas de leitura ou estudo, que eram facilmente resolvidos com colírio lubrificante. 

Hoje eu sinto desconforto ocular, seja pelos olhos extremamente secos, seja pelo uso do colírio antibiótico que aumenta a pressão ocular e eventualmente causa quadros de enxaqueca. Ao menos tenho conseguido usar os colírios lubrificantes sem sentir a ardência que senti há uns dias atrás. 

Eu me pergunto como fui cair nesse conto. Como pude pagar para me mutilarem dessa forma. Como pude cair na conversa daqueles que se assustavam com meus óculos e questionavam: - Porque você não opera? É tão simples... 

Nenhuma cirurgia é simples. 

Eu queria poder voltar atrás e ter ido na ótica encomendar meus novos óculos de grau. Mas como não posso, só resta relatar minha experiência e torcer para que aqueles que leiam, e estão, como eu estava, em dúvida sobre fazer ou não esse procedimento, especialmente aquelas pessoas que, como eu, são consideradas altos míopes, mudem de ideia e não façam. 

Isso porque, quanto mais alta a miopia, maior a mutilação. Mais camadas de epitélio serão retiradas dos seus olhos, e consequentemente, maior será o dano causado.

Não há nada de errado em ser míope. Não há nada de errado em usar óculos, e não importa se as lentes são grossas, não importa o que os outros pensam ou te dizem. 

O que importa é sua saúde. Seu conforto. É não sentir dor.












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